terça-feira, 15 de abril de 2014

Cheiros impossíveis de esquecer




A noite iniciou-se calma e morna num tempo indefinido em que a chuva decidiu brindar-nos com o fresco da sua liquidez. O cheiro à terra quente e molhada é quem comanda os sentidos, num inebriante perfume que me recorda as tardes de Agosto quentes da infância. Os risos e o deslumbre das trovoadas de Verão à mistura com a alegria de molhar os dedos dos pés nessa água quente, salpicando as roupas de gotas barrentas.
As memórias dos cheiros são as que mais guardo em mim, cheiros que me ficam como marcas na pele, que se cravam em mim.
Há cheiros impossíveis de esquecer: o do sabão quando a mãe lavava no tanque que, sendo pequeno, era um lago de águas transparentes e gélidas saídas de um poço assustador e profundo, capaz de me engolir e nunca mais ser encontrada.
O cheiro da colônia de lavanda quando saía ao domingo, perfumada que intoxicava dada a quantidade em mim vertida.
O cheiro dos longos cabelos negros da minha mana que penteados sob protestos, ainda que apanhados se revelavam revoltos.
Os cheiros da infância são tesouros bem guardados, de ingênuos tempos, irremediavelmente perdidos.
E há cheiros que me assolam o pensar e o sentir, carregados de outras memórias, mais vivas e sentidas, de uma vida ainda a viver, ainda a partilhar, ainda a aprender.
Como o teu cheiro. O cheiro da tua pele. O cheiro do teu beijo misturado no sabor do meu. O cheiro do teu corpo suado, molhado pelo meu. O cheiro do teu sexo penetrado no meu, enchendo, vertendo, inundando-me desse prazer insano, derramado dentro do meu...
Há cheiros impossíveis de esquecer, que nós alimentam a alma e ao corpo fazem viver!
 
 
14.Abr.2014

Mudar




A tarde vai a meio do caminho do fim de jornada e o sol, escondido pelas núvens, não deixa de brilhar e de se fazer notar em pontuais rasgos de luz. O rio estagnou na hora de reponta e surge-nos ao olhar, como um lago sereno e calmo, onde as gaivotas flutuam imitando pequenos barcos e os patos, mergulhando, criam círculos que se repetem como se gotas de chuva se tratassem.
Os sons hoje são calmos,de quem se deixa aquecer pelo quentinho de uma Primavera mais fria que o habitual, como que ansiando pelo seu abraço e os passos, de quem se passeia sem pressa e esperando que o dia se prolongue e não se deixe domar pelo escuro da noite.
Aqui, o calor não se faz sentir e a vontade é de saltar e deixar ao abandono as tarefas do quotidiano, da monotonia de uma rotina que se mantém, dia-a-dia, cada vez mais igual. Deixar para trás o seguro do certo e avançar em passo acelerado em direcção ao incerto desconhecido, no sentido de um novo rumo que me preencha, que me faça ainda mais plena.
Completamente plena de mim.
E a vida seria ainda mais perfeita.
Mas... Há sempre um mas nas histórias dos nossos sonhos e vamos vivendo sem a plenitude que almejamos, que tanto queremos.
E olhamos quem passa do outro lado do vidro, no seu passo de corrida ou no parar dos sentidos vendo a paisagem que neles fica retida e, imagino se estarão nesse ponto de partida, tal como eu gostaria, para uma (tão querida) nova vida.
E a esperança renova-se no imaginar dessas vidas que se podem estar a iniciar. E os lábios voltam a sorrir e os olhos a brilhar.
 
 
14.Abr.2014