quarta-feira, 20 de agosto de 2014

(Sobre)Viver


A noite já dorme no seu leito de estrelas cintilantes que quase passam despercebidas por entre as nuvens. O silêncio é seu companheiro de jornada deixando as ruas vazias de gente parecer um deserto de pedras escuras, polidas pelo calçado de quem percorre as vielas da vida.
O orvalho está prestes a cair, sente-se no ar o cheiro que o antecede, fazendo as pétalas dos agapantes brilhar de tanta sede por o tomar.
Aqui, não há orvalho que me faça brilhar ou desejar sentir na pele o seu suave toque refrescante e purificante.
Aqui, dentro de mim, há o desalento do (de novo) falhar. O enfrentar do nada para sempre durar. Do tudo, um dia, terminar. Do nada para além das memórias na pele gravadas, para além do sabor das recordações nos lábios guardados, do calor dos sentimentos partilhados na alma cravados, nela profundamente marcados e jamais esquecidos.
Momentos únicos, intensamente vividos agora perdidos, feitos nevoeiro sobre o rio que se desfazem em novelos de bocados partidos.
Pontas soltas de uma vida vivida, que tento remendar, colar, entrelaçar e, sobretudo, perpetuar em loop sem fim, em busca do motivo, da razão e do porquê de ter deixado de ser assim: perfeito.
Afinal, há gotas de água aqui: caiem de mim, por mim e, pelo meu rosto escorrem, sulcando marcas invisíveis na face. Água que verto sem pudor, sem receio de mostrar toda a dor, que vai aqui, no meu peito.
E, ao mesmo tempo, há nas lágrimas um poder que não entendo, que ao cair nos lábios, não resisto e sorvo, sentindo todo o seu gosto salgado como gotas de um mar não reclamado, apenas meu, privado. E dele me alimento. E dele renasço mais forte que ontem, mais frágil que amanhã.
Que a esperança de (sobre)viver é mais forte que por um amor morrer...



27.Junho.14

Apaziguar


O dia percorreu já metade do seu curso, por entre gotas pesadas e refrescantes de uma chuva de Verão e o brilho, quente e forte, de um sol que brinca por entre nuvens e a folhagem das árvores que, suavemente, ondulam perante uma brisa quase ausente.
O tempo, esse, passa mais lento que o habitual e o silêncio que se sente contrasta com a vida fervilhante de um qualquer dia da semana. Hoje, nem o cantar dos pássaros se faz presente, é um tempo que passa ausente, de um nada constante.

Cá dentro, de mim, nada é diferente. Os minutos apesar de presentes são tempo que passa ausente, sem vida, sem barulho, sem tudo e cheios de nada, carregados de vazio.

Só as saudades por vezes alimentam o seu correr.
Saudades que me aumentam o pesar, o chorar e o te amar.
Saudades do teu sorrir, do som da tua voz por mim a chamar, do calor do teu abraço no encaixe perfeito de dois corpos que se sabem e de duas almas que sabem o que é amar. Verdadeiramente amar.
Saudades marcadas pela ausência do teu falar, do teu doce e intenso olhar onde sempre quis mergulhar sem receio de me perder na corrente do teu desejar, de te pertencer e de para mim te tomar.
Saudades que a cada dia se fazem aumentar incentivadas pelas falsas tréguas de que o tempo vai ajudar.

Não há tempo que ajude a matar o que eu por ti sinto, a apaziguar o meu te amar.


24.Junho.14